O PROBLEMA DA VERDADE - FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇÃO




Conhecer é apreender a realidade ou o nosso objeto de pesquisa ou estudo. Teoricamente, a realidade ou um objeto de estudo não somente parece, mas também se apresenta maior ou mais abrangente e complexa à medida que o observador ou pesquisador dela se aproxima. E também menor, ou menos complexa, no caso contrário.
A respeito desse último caso, Nietzsche (1844-1900), por exemplo, certa vez escreveu: “Quanto mais alto voamos, menores parecemos aos olhos daqueles que não sabem voar...”. 
Em outras palavras, como existem diferentes objetos de estudos, o pesquisador (observador) passa a captar ou a receber maiores informações, em termos de dados frequentes ou relevantes, não somente quando deles se aproxima, mas também quando, estrategicamente, mantém-se próximo ou inserido no mesmo tempo-espaço que ele. Isto é: na sua realidade.
Numa conclusão preliminar, realizando uma síntese sobre a temática, pode-se até aqui então dizer que pesquisar ou estudar:
1-    É buscarmos conhecer ou nos aproximarmos de uma suposta realidade ou do nosso objeto de estudo;
2-    É buscarmos tornar os conhecimentos sobre os nossos objetos de estudos grandes ou mais abrangentes para nós;
3-    É aumentarmos a nossa percepção ou visão sobre os nossos objetos de estudo;
4-    É buscarmos compreender os nossos objetos de estudo dentro de um contexto ou ângulo de visão mais próximo deles ou deles mais próximos de nós;
5-    É   aproximarmo-nos  ou   inserirmo-nos   na realidade dos nossos objetos de estudo.

II

Como se vê, não há qualquer diferença, em termos de função, mas apenas metodológica, entre um pesquisador e um espião, uma vez que: “conhecer”, abstrata ou teoricamente falando, como já dito no início, mas que aqui ainda se faz necessário redizer, “é buscar captar ou apreender um objeto de estudo ou uma realidade qualquer”.
Esses axiomas básicos de busca pelo conhecimento, seja o estudo ou a pesquisa qual for, são de uma questão puramente teórico-física (ciência física), e dizem respeito, em termos gerais, aos “princípios da propagação retilínea”, no contexto da óptica geométrica.





No mundo real, na práxis, no mundo do diálogo que sempre precisa haver entre teoria e prática, entretanto, deve-se atentar para dois grandes problemas relativos à capacidade humana de conhecer ou alcançar a verdade. Isto é, existem realidades ou objetos de estudos inorgânicos e orgânicos, a saber:
1-   Os primeiros (os inorgânicos), enquanto realidades ou objetos sem alma (afeto), pulsão (instinto) e razão (inteligência, imaginação) não se automodificam (de forma intencional ou espontânea) na presença ou diante da aproximação de pesquisadores, estudiosos ou observadores (está-se falando literalmente dos objetos ou da matéria bruta em si);
2-   Já os segundos (os orgânicos), enquanto realidades com alma (afeto), pulsão (instinto) e razão (inteligência, imaginação) não permanecem os mesmos. Isto é, não permanecem estáticos ou passivos diante da aproximação de seres por eles vistos ou percebidos como estranhos, intrusos ou estrangeiros (estudiosos, pesquisadores etc.).
No caso especificamente dos homens, por exemplo, que são dotados ao mesmo tempo de alma (afeto), de pulsão (instinto) e de razão (espírito ou inteligência), isto é, de contradição interna, ao saberem-se observados por ditos desconhecidos, estranhos ou estrangeiros a eles ou aos seus grupos (estudiosos, pesquisados, etc.), eles podem – não somente de forma involuntária, mas também intencional, muitas vezes até dissimuladas –, alterarem os seus estados habituais ou “naturais”:
1-   Visando-se    induzir     o    estudioso     ou pesquisador a um suposto erro;
2-   Visando-se não se mostrarem como habitual ou naturalmente são;
3-   Visando-se desviar ou desvirtuar, para outro, o foco de atenção ou percepção daqueles que os tentam desvendar.
Em outras palavras:

1-   Uma coisa é pesquisar ou observar uma árvore ou uma espécie vegetal qualquer sob as diferentes intempéries da natureza; ou sob os seus diferentes estados de desenvolvimento, que são cíclicos ou mecânicos (idealistas dialéticos). Isto é, não materialmente dialéticos nem dissimulados;
2-   Outra coisa é pesquisar ou observar objetos de estudo que possuem alma (afeto), pulsão (instinto) e razão (espírito, ideia ou razão). Isto é, que percebem, sentem, deduzem ou imaginam que estão sendo observados ou pesquisados.




A pesquisa fenomenológica, e também a etnográfica, é importante frisar, não é uma pesquisa de dados de fato ou de realidades psicológicas (daqueles que se diz que “contra fatos não há argumentos”), mas sim de realidades anteriores, isto é, de imaterialidades ou ditas irrealidades: de redução eidética (daquelas que se diz que “somente contra fatos é que há ou também poder haver argumentos”).
Para a fenomenologia, frise-se, os fatos, embora possam ser entendidos dentro de uma ordenação lógica, não revelam a alma fenomênica das realidades ou dos objetos de estudo, mesmo porque lógica, embora talvez poucos saibam, não é sinônimo de verdade ou veracidade. Para a fenomenologia, sendo assim, “entender” as realidades ou os objetos de estudo não nos torna também capazes de desvelar o “sentido” deles (dos fenômenos).
Isso quer dizer que, dentro da pesquisa fenomenológica (e também etnográfica), o pesquisador ou observador nunca pode, pelo objeto de estudo ou pela realidade pesquisada, caso esta não seja a sua prévia intenção, deixar-se ser visto ou percebido como um ser estranho ou estrangeiro ao pesquisado ou ao seu grupo.
Nesse sentido, contrariando a teoria da óptica geométrica (princípios da propagação retilínea), às vezes afastar-se literalmente de um objeto de estudo ou de uma realidade qualquer seja a forma mais adequada para poder-se buscar, em determinado espaço-tempo ou contexto, entendê-lo (a).
Se assim não for, nesses casos específicos, o objeto de estudo ou a realidade a ser pesquisada será antes essencialmente alterada, e a pesquisa desqualificada, uma vez que os dados por ela captados estarão, em grande parte, desvirtuados ou descontextualizados de suas almas fenomênicas.
Mesmo em procedimentos de pesquisas ditos quantitativos, daqueles que são feitos por meios  de questionários ou pesquisas de opinião, deve haver sempre o caráter da intencionalidade do pesquisador apontado por Edmund Husserl.
A intencionalidade está no fato de que, se alguém, enquanto estudioso ou pesquisador, pretende saber, numa determinada área, por exemplo, quais as opções de um grupo sobre uma específica matéria, ele precisa também, antes, desviar o foco da sua pesquisa, de tal modo que as respostas (diretas ou indiretas) dos pesquisados sejam as mais próximas das espontâneas ou habituais possíveis.
É bem verdade que, Immanuel Kant, leitor de David Hume, filósofo cético-relativo, crítico à nossa capacidade de conhecermos a essência dos objetos de estudos, dizia, por exemplo, que “não podemos conhecer as coisas em si, mas somente como elas são para nós”.
Não pensamos diferente de Immanuel Kant, David Hume e nem tampouco de Edmund Husserl (três importantes filósofos cético-relativos).
Pensamos, inclusive, assim como Husserl, que, se seguirmos esses princípios básicos relativos ao método fenomenológico – essenciais a qualquer estudo ou pesquisa –, poderemos fazer com que os nossos resultados sejam bastante eficientes, com reduzidas probabilidades de erros, já que não trabalhamos também, assim como Hume, Kant e Husserl, com a hipótese de alcance da verdade.



I

Segundo David Humei (1711-1776), filósofo empirista escocês, Evidência e/ou Impressão, longe de ser uma fonte de verdades, é aquilo que se deduz a partir da associação de sensações, fatos, imagens, situações, etc. Isto  é, as nossas ideias, e que por isso mesmo na maioria das vezes não são verdadeiras, são formadas, com o auxílio da nossa imaginação e/ou racionalidade, a partir delas (evidência e/ou impressões). Em outras palavras:
“As evidências e/ou impressões que temos do mundo, quando trabalhadas somente pela nossa imaginação e/ou racionalidade (e não encaradas também dentro de uma postura cético-relativa e/ou não confrontadas com a realidade), trazem        consigo      grandes probabilidades de originarem também as nossas falsas ideias e/ou fictícias noções da realidade.”

Explico: um centauro (metade homem e metade cavalo), por exemplo, como se sabe, não existe de forma concreta, no mundo real.

Entretanto, foi-se e é-se possível imaginá-lo ou criar uma ideia racional sobre a possível existência dele a partir da associação de sensações, fatos, imagens, etc. correspondentes ao homem e ao cavalo.
Ou seja, frise-se: o centauro, assim como a sereia etc., é fruto da imaginação e/ou racionalidade humana.
E alguém pode, inclusive, embora se saiba que esses seres imaginários não existem no mundo real, afirmar que já os tenham visto.
 II

É fato, porém, que, dentro da história da filosofia, especialmente dentro da ética, existem também diferentes conceitos de verdade.

Todavia, um dos mais aceitos deles, embora existam também críticas quanto ao que se possa ou não ser considerado realidade, é o de Aristótelesii.
Aristóteles, por exemplo, em seus preceitos lógicos, sob a égide daquela que é hoje conhecida e chamada lógica aristotélica, dizia que “a verdade é a perfeita adequação do pensamento a coisa real”. Isto é, teorizava que     a verdade não é aquilo que se imagina ou se racionaliza, na nossa mente, enquanto ideia ou convicção, a respeito do real, mas sim o que de fato existe no mundo concreto ou material.
Dentro do empirismo cético-relativo de David Hume, sendo assim, nós não podemos, sem provas concretas, “sem uma perfeita adequação do pensamento a coisa real” (Aristóteles), termos certezas absolutas de nada.
Segundo o pensamento de David Hume, frise- se outra vez:

“As ideias que conseguimos desenvolver ou alcançar, trabalhadas com a nossa imaginação e/ou racionalidade, a partir das evidências e/ou impressões que temos da realidade, são apenas probatórias. Ou seja, dotadas somente de menores ou maiores probabilidades de serem ou não de fato verdadeiras.”

III

Como clarificado a partir do empirismo cético- relativo de David Hume, e também da metafísica de Aristotélica, evidências e/ou impressões, quando trabalhadas apenas pela nossa imaginação  e/ou  racionalidade,  sem   um senso crítico, não nos fazem desenvolvermos ideias que tenham uma perfeita adequação à coisa real. Mas, pelo contrário a, muitas e não raras vezes, paradoxalmente criarmos divagações, ilusões e/ou falsas convicções da realidade.

Isto é, para David Hume, evidências e/ou impressões, em muitos e não raros casos, são apenas fontes de erros: erros provocados pelos nossos sentidos, criando em nós fictícias noções da realidade e/ou “ídolos” que, segundo o filósofo empirista Francis Bacon, por exemplo, “migram para os nossos espíritos como se fossem verdades absolutas, dando-nos  a      ilusão,       todavia, de estarmos hiperconscientes”.
Pense-se sobre o seguinte:

1-   Era evidente, para muitos, que o  sol  girava em torno da terra (e que, ele, o sol, era também muitas vezes menor que ela, a terra), e não o contrário;
2-   Era evidente, para muitos, principalmente para os escravocratas, que os negros não tinham alma e, que, por isso mesmo, podiam ser também escravizados;
3-   Era evidente, para muitos, para aos  valores da sociedade patriarcal, que as mulheres eram inferiores aos homens;
4-   Era evidente, para Hitler e para todos aqueles que o seguiam, que a dita “raça ariana”, o povo alemão, era superior (ou melhor) a outros;
5-   Era evidente, para os  racistas,  que  Nelson Mandela era um criminoso porque lutava contra a segregação racial (Apartheid) na África do Sul;
6-   Era evidente, para a igreja católica, que Martin Lutero era um herege, um ser diabólico, exatamente por ter fixado 95 teses contra os preceitos ditos abusivos e antibíblicos da referida igreja e fundado o chamado protestantismo religioso;
7-   Era evidente, para muitos, que a ciência, originada a partir da era antropocêntrica, atrelada a filosofia iluminista, resolveria os grandes problemas humanos;
8-   Era evidente, para os colonizadores e catequizadores, que os índios não tinham cultura, que eram seres primitivos, canibais, e que por isso deveriam e/ou poderiam ser dizimados.
Em síntese, vale redizer: evidências e/ou impressões, quando trabalhadas apenas pela imaginação e/ou racionalidade, sem a busca pelo senso crítico, na maioria das vezes não nos conduzem a ideias verdadeiras, mas apenas a criação de falsas percepções sobre a realidade.



I.5     SOBRE AS CONDENAÇÕES FUNDAMENTADAS APENAS EM CONVICÇÕES.

Pergunta:
“Didaticamente, o que seria condenar alguém fundado ou fundamentado apenas em evidências e/ou impressões e consequentes convicções criadas a partir delas?”

Sobre elas, quando substanciadas apenas em evidências e/ou impressões (e não em provas concretas), Nietzsche1iv (1844-1900), filósofo alemão, responde-nos:

“As convicções são mais inimigas da verdade do que as mentiras.”


Obs. Essa disciplina é parte integrante do curso livre de pós-graduação em FUNDAMENTOS FILOSÓFICOS DA EDUCAÇÃO.

Informações: clebersonuerj@gmail.com


NOTAS


i David Hume (Edimburgo, 7 de maio (ou 26 de abril-Antigo) de 1711 Edimburgo, 25 de Agosto de 1776) foi um filósofo, historiador e ensaísta britânico nascido na Escócia que se tornou célebre por seu empirismo radical e seu ceticismo filosófico. Ao lado de John Locke e George Berkeley, David Hume compõe a famosa tríade do empirismo britânico, sendo considerado um dos mais importantes pensadores do chamado iluminismo escocês e da própria filosofia ocidental. David Hume opôs-se particularmente a Descartes e às filosofias que consideravam o espírito humano desde um ponto de vista teológico-metafísico. Assim David Hume abriu caminho à aplicação do método experimental aos fenômenos mentais. Sua importância no desenvolvimento do pensamento contemporâneo é considerável. Teve profunda influência sobre Kant, sobre a filosofia analítica do início do século XX e sobre a fenomenologia. Obras: A obra filosófica de Hume tem duas fases: uma obra pretensiosa feita na juventude, que é o Tratado da Natureza Humana. Hume negaria esta obra, e publicaria outros títulos filosóficos que integrariam os Ensaios e tratados sobre vários assuntos.


NOTA SOBRE ARISTÓTELES

ii Aristóteles (em grego clássico: Ἀριστοτέλης; transl.: Aristotélēs; Estagira, 384 a.C.
Atenas, 322 a.C.) foi um filósofo grego, aluno de Platão e professor de Alexandre, o Grande. Seus escritos abrangem diversos assuntos, como a física, a metafísica, as leis da poesia e do drama, a música, a lógica, a retórica, o governo, a ética, a biologia e a zoologia. Juntamente com Platão e Sócrates (professor de Platão), Aristóteles é visto como um dos fundadores da filosofia ocidental. Em 343 a.C. torna-se tutor de Alexandre da Macedônia, na época com treze anos de idade, que será o mais célebre conquistador do mundo antigo. Em 335 a.C. Alexandre assume o trono e Aristóteles volta para Atenas onde funda o Liceu.


NOTA SOBRE FRANCIS BACON

iii Francis Bacon, 1°. Visconde de Alban, também referido como Bacon de Verulâmio (Londres, 22 de janeiro de 1561 Londres, 9 de abril de 1626) foi um político, filósofo, ensaísta inglês, barão de Verulam (ou Verulamo ou ainda Verulâmio) e visconde de Saint Alban. É considerado como o fundador da ciência moderna. Desde cedo, sua educação orientou-o para a vida política, na qual exerceu posições elevadas. Em 1584 foi eleito para a câmara dos comuns. Sucessivamente, durante o reinado de Jaime I, desempenhou as funções de procurador-geral (1607), fiscal-geral (1613), guarda do selo (1617) e grande chanceler (1618). Neste mesmo ano, foi nomeado barão de Verulam e em 1621, barão de Saint Alban. Como filósofo, destacou-se com uma obra onde a ciência era exaltada como benéfica para o homem. Em suas investigações, ocupou-se especialmente da metodologia científica e do empirismo, sendo muitas vezes chamado de "fundador da ciência moderna". Sua principal obra filosófica é o Novum Organum, que trata dos chamados ídolos, que precisam ser superados para que se chegue ao conhecimento.


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