O POVO SE MATA (?); O POVO SE ODEIA (?).

À essa altura, em pleno alvorecer do séc. XXI, depois de tudo que temos visto politicamente passar o Brasil nas últimas décadas, ouço ainda muitos dizerem que “Deus é Brasileiro”.
Pergunto-lhes: “Qual Deus?” E imediatamente respondo: “Só se for o deus da corrupção, do peculato, da falta de decoro, da amoralidade, da dissimulação, do neoliberalismo e da falta de ética”. Os gregos antigos, como é sabido, criavam vários tipos de deuses. “Hades”[1], por exemplo, era chamado por eles de deus do inferno ou do submundo. Não seria esse (ética, socioeconômica e politicamente  falando)   o   caso  desse   tal   deus Brasileiro?
Dizem que “a voz do povo é a voz de Deus!”.

Pergunto: “Qual povo?” E imediatamente também respondo... Mas, dessa vez, com outras perguntas: “O Povo que assiste passivo o governo tirar seus direitos trabalhistas e legalizar a ideia elitista de que o proletário tem que morrer trabalhando? O povo que mandou condenar a Jesus Cristo e soltar Barrabás?” Isto é: “De qual povo é a voz desse deus, e qual seria esse deus (se não for o Hades), caso a voz do povo de fato seja a voz dele?” Dizem mais: que “Deus é amor”. Não discordo, mas pergunto: “Não dizem também que “o amor é cego”? “Nessa hipótese, os alienados e/ou deficientes visuais seriam também deuses e quase ninguém sabe?”
O fato é que se o povo fosse sábio e se a voz do povo realmente fosse a voz de Deus, os Juízes (não somente, mas especificamente no Brasil) seriam justos e os políticos, a maioria deles, não seriam corruptos e lobistas – a escória do mundo”.
Mais que isso: “Se o povo fosse sábio ou se a voz do povo de fato fosse a voz de Deus, Ele certamente não permitiria que ladrões, prostitutas, ateus, genocidas e sociopatas potenciais (na condição de políticos eleitos pelo próprio povo) se apossassem, como sanguessugas, da coisa pública”.
II

Trágica e infeliz conclusão: não somente aqui no Brasil, mas também em vários outros países latinos, africanos e asiáticos outrora e hoje ainda neocolonizados por uma elite capitalista mundial, a voz do povo tem sido a voz alienada do povo mesmo e não a de um suposto Deus. Isto é, ainda que existam exceções, pois toda regra tem, no caso específico do povo brasileiro, pode-se dizer que, historicamente, ele, o povo, também não foi, não é e não tem sido nenhum santo, mas sim um codependente ou coparticipante da sistematização da sua própria condição de exploração ou  exclusão. Em outras palavras:
1-             O povo, na maioria dos casos, ouve-se e vê-se nas ruas, seja ele de classe média ou pobre, e embora quase sempre (na condição de fantoche) presente em manifestações (criadas estas pelas mídias), não está, na prática, nem aí para questões éticas, quem dirá políticas: o povo, por exemplo, fala mal de bandidos, mas compra cargas e produtos roubados; o povo, por exemplo, fala mal de políticos corruptos e desalmados, mas adora e apoia quando alguém do povo ou da sua família puxa o saco de alguns ou algum deles e prospera, ainda que momentaneamente, recebendo parte das propinas;
2-             O povo, com exceção de uma pequena classe media alienada que um dia sonha em pertencer à elite, não quer ler, não quer estudar (não quer se instrumentalizar para poder se libertar da condição de fantoche do sistema);
3-             O povo, tragicamente, contenta-se com migalhas: quer comprar cerveja barata, de preferência litrão, e ficar colocando amaciante na carne de segunda para conseguir ruminar o churrasco; o povo quer comprar celular de última geração ou eletrodomésticos parcelados de dez ou doze vezes; o povo quer fazer mais filhos para conseguir mais cotas de ajuda financeira de programas sociais como o “Bolsa Família”, etc.
4-             O povo, não se sabe como, gasta mais de 30% do que recebe com bebidas e festas, mas não compra um livro;
5-             O povo quer ouvir funk, pagode, sertanejo. O povo quer balançar o corpo, se entorpecer e sofre de amor. O povo não quer ouvir MPB, abrir a mente, compreender a trágica história do Brasil;
6-             O povo, embora você possa discordar, não quer pensar (muito menos ainda em questões políticas). O povo elege candidatos de extrema- direita, neoliberais, capitalistas selvagens. O Povo coloca os seus inimigos históricos de tempos em tempos no poder. O povo mata a si mesmo. O povo se odeia. O povo não gosta e nem sequer consegue amar ou respeitar o povo. O povo zomba do povo;
7-             O povo acha que não é preciso pensar ou participar de política para viver. O povo vai sobrevivendo (e não vivendo) como dá; vai deixando a vida (ideologia) levá-lo;
8-             O povo quer comprar carros e casas, mesmo usados, financiados a perder de vista. Quando ele não consegue mais pagar, o banco toma ou ele então devolve o bem “comprado” e vira mendigo ou recomeça do zero. O povo ama sofrer e dizer que está lutando para se superar. O povo quer ficar ou tentar ficar rico mesmo sem dinheiro. O povo, alienadamente, quer o dito fácil (que é impossível): elevar o poder de consumo ou de compra mesmo sem elevar o poder de renda;
9-             O povo, na verdade, só quer ter um emprego: ter um patrão que lhe paga determinado salário e lhe rouba legalmente a mais-valia. O povo, na verdade, nem sabe o que é mais-valia. O povo vota em quem diz que vai gerar mais empregos. O povo quer jogar na loteria, tentar a sorte. Ele acredita que isso é muito mais vantajoso e fácil do que buscar se transformar;
10-          O povo, depois do trabalho ou na condução mesmo, quer assistir novelas e filmes com finais felizes;
11-          Há quem diga que o povo alienado é bom; que gente alienada sofre menos. Estes não sabem que esse povo é também justiceiro. O povo, por exemplo, quer ser Juiz quando alguém do povo ou da elite é pego cometendo algum erro ou crime. Cometer crime pode, o que não pode é deixar-se ser pego e ir parar no noticiário da TV ou nas redes sociais. Se não tiver repercussão, o povo não está nem aí, mas se tiver... Ah, se tiver, o povo quer promover o linchamento em praça pública... O povo diz que quer justiça, mas a justiça do povo, para o povo, é aquela que tem que ser feita com as próprias mãos ou para gerar espetáculo nas mídias, satisfazendo-as;
12-          O povo alienado não é justo e nem tampouco ético. E muito menos ainda feliz. O povo sempre fala mal do vizinho que prospera mais do que ele; do amigo que dá um salto na vida maior que o dele porque não se entregou e resolveu lutar. Se for mulher, o povo diz que está se prostituindo; se for homem, o povo diz que está roubando;
13-          Quando alguém do povo decide estudar e começa a pensar diferente, o povo diz que “estudo não leva a nada”, que “quem estuda fica maluco”, que “estudar é perda de tempo” etc.;
14-          O povo é um paradoxo: o povo fala mal da polícia, quando esta usurpa os seus direitos, comete injustiças e mata gente inocente. Mas o povo também se sente cheio de poder para cometer as mesmas injustiças quando alguém da sua família se torna sujeito da lei, amigo ou cônjuge de policial, de criminoso do colarinho branco ou mesmo de bandido.
III

Enfim, não se está aqui, nem de longe, zombando do povo. Não se trata, como talvez pareça, de querer culpar o povo pela sua própria condição de exclusão, mesmo porque isso o capitalismo e as elites já fazem, mas sim de fazer- se entender que a cidadania, ainda que seja um Direito de todos e um dever do Estado, nunca será também uma dádiva, principalmente quando esse Estado é Mínimo, neoliberal. Ou seja, em sociedades como a nossa, elitistas, capitalistas, individualistas, meritocráticas, subdivididas em classes antagônicas, a cidadania é e sempre será também fruto de uma conquista (e na maioria das vezes de uma conquista coletiva).



[1] Hades costuma apresentar um papel secundário na mitologia, pois o fato de ser o governante do Mundo dos Mortos faz com que seu trabalho seja "dividido" entre outras divindades, tais como Tânato, deus da morte, ou as Queres (Ker) - estas últimas retratadas na Ilíada recolhendo avidamente as almas dos guerreiros, enquanto Tânato surge nos mitos da bondosa Alceste ou do astuto Sísifo. Como o senhor implacável e invencível da morte, é Hades o deus mais odiado pelos mortais, como registrou Homero (Ilíada 9.158.159). Platão acentua que o medo de falar o seu nome fazia usarem no lugar eufemismos, como Plutão (Crátilo 403a).


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